Antes de mais agradeço a sua disponibilidade e amabilidade por nos receber e aceitar fazer esta entrevista.
P- Gostaria de lhe perguntar, sendo criador de carduelis nomeadamente carduelis cucullata, como surgiu a sua paixão por estas aves e quais foram as condicionantes mais importantes no inicio da formação do seu plantel?
R: Desde já à muitos anos, conhecia o cardinalito da Venezuela, como sendo o pintassilgo da Venezuela que teria dado origem aos canários vermelhos. Desde então nutria uma forte ligação com estas magnificas aves, mas os seus preços eram, para mim, proibitivos.
Mais tarde, como todos nós somos um dia, fui enganado. Comprei um macho e duas fêmeas a um comerciante de aves na cidade da Maia, cuja loja já não existe. De facto, não se aplicou a minha velha máxima de que “o Barato sai caro”, mas sim a máxima de que comprar aves importadas do estrangeiro sem fazer o negocio directamente com o criador, é mau negócio.
Mais tarde, comprei uns casais ao Sr. João Miranda Mendes e ao Sr. Lino, na sua loja em Paredes, mal sabia eu que eram criados pelo Sr. Neves.
Assim, com boas aves, criei sem dificuldades e rapidamente rentabilizei o “investimento” esquecendo os prejuízos.
Foi nesse primeiro ano de sucesso que iniciei o meu plantel e a paixão por expor.
P- Muitos criadores defendem que o sistema de avaliação de aves do género carduelis, deveria de ser diferente. Nomeadamente, deveriam de ser julgadas as aves por espécie e não como actualmente, várias espécies de carduelis em conjunto. Sendo de carduelis qual a sua opinião a esse respeito?
R: Concordo plenamente, até para incentivar os criadores a expor. Se eu não tivesse ganho sempre que expus, mesmo no inicio, talvez nunca me entusiasmasse por expor.
Eu vi o “negocio” para alem do expor, vi a competição para alem do expor, vi a dedicação e o conhecimento necessários para criar uma boa ave de exposição.
Acredito plenamente, que separando as aves por espécies e até mesmo por mutações, que surgiriam novos prémios para os expositores e aumentariam as possibilidades de obtenção de prémios, pelo que o numero de expositores deveria aumentar exponencialmente.
P- Muitos criadores/expositores ainda têm medo de expor justificando-se com maus acondicionamentos das aves nas exposições, demasiado frio, comida inadequada por entre outras justificações. No meu caso em particular, nunca tive qualquer tipo de problema sempre que expos. Do seu ponto de vista, estas “criticas” têm algum tipo de fundamento ou de facto não passam de desculpas para que as aves não sejam avaliadas?
R: Bom, eu acredito que os portugueses são muito orgulhosos e ninguém gosta de perder. Por outro lado, para pessoas com poucos rendimentos, estas aves são sem duvida um suplemento e ninguém quer perder uma ave em exposição.
Eu próprio sempre que expus, verifiquei diariamente as condições das minhas aves, até porque elas não comem comida de canários. E isso poderá mata-las.
Assim, acredito ser um misto de várias situações….
P- Sendo um membro activo da avicultura portuguesa, criador/expositor, e conhecendo eu o seu trabalho o que considera mais importante na escolha de um criador para as suas aves?
R: Sem dúvida, muito mais importante que o preço, já que ninguém vende aves de elevada qualidade sem um elevado preço, é a qualidade das aves. E sem a menor dúvida, o melhor criador é também aquele que nos mostra o que faz, como se faz e se mostra disponível para acompanhar a nossa progressão com as suas aves.
P- Quais as “dicas” que daria para um criador de carduelis seguir como linha de trabalho para obter aves dentro dos STANDARDS exigidos?
R: Existem vários tipos de lugres do género carduelis e cada espécie ou subespécie tem as suas características específicas. Muitas vezes o desconhecimento completo das verdadeiras características de um determinado carduelis, não é só defeito do expositor/criador ou do próprio juiz, mas sim da falta de informação fidedigna disponível acerca de cada espécie.
Contudo, é fundamental seguir ao máximo as informações que obtemos e tentar ter as aves nas melhores condições sanitárias e de plumagem, para que no dia do julgamento, se comportem na gaiola e estejam perfeitas para o juiz.
P- Gostaria de lhe perguntar agora quais foram as pessoas mais importante para si neste mundo encantado da criação de cardinalitos e quais são os seus ídolos ou as pessoas que gostaria de seguir o exemplo na criação destas fantásticas aves?
R: Tenho vários. Para mim uma das pessoas mais importantes, foi sem dúvida o Sr. João Miranda Mendes, com todo o conhecimento que amavelmente me passou. Também um amigo espanhol o Sr. José Vives Martinez, ao qual comprei os meus primeiros diluídos e duplo diluídos.
Depois destes, que foram importantes no meu arranque, gostaria de destacar o Sr. Abílio, que me incentivou a expor a primeira vez.
Posteriormente, gostaria de destacar dois amigos, António Cunha, amigo do peito, cliente por muitos anos, e sem duvida o Sr. Alberto Neves, que têm sido uns companheiros em todas as minhas empreitadas.
P- Quais as mutações que lhe dão mais prazer ao criar?
R: Todas as mutações, todas as aves, incluindo ancestrais. Desde que a ave seja boa, bonita e tenha presença, vai dar-me prazer a criar.
Os meus amigos gozam comigo, dizem que crio aves em serie, que são todas fantásticas, mas todas iguais. De facto acredito ter criado uma imagem de marca e da verdadeiramente para ver quando uma ave é criada por mim. Mas cada ave é uma ave.
Agora tenho um novo lema, fui coleccionando aves com asas partidas, ou patas partidas, em que em muitas delas houve a necessidade de amputar o membro, mas que têm sido curadas por mim e têm criado de forma fantástica mesmo “com defeito”.
P- Considera que ter umas boas fotografias e estar num site com divulgação internacional lhe trouxe mais-valias?
R: Claro, eu já tinha um site quando surgiu a possibilidade de criar o carduelisnorte, mas foi sem dúvida uma experiencia fantástica. Permite colocar mais e melhores fotografias, colocando alguns criadores portugueses ao nível dos melhores da Europa e do Mundo ao nível da divulgação e das fotografias.
P- Como é expositor, o que aprecia mais no aspecto de uma ave?
R: Sem dúvida o desenho, a uniformidade da cor e a plumagem, bem como a postura da ave na gaiola de exposição.
P- É muito difícil criar exemplares de exposição e prepara-los para as exposições?
R: Para os preparar decentemente são necessários muito tempo, esforço, empenho e algum investimento, para além de um profundo conhecimento dos cruzamentos e da carga genética dos progenitores. Tudo o que for fora disto, são tiros de sorte.
P- O que será mais importante na formação de uma ave? A carga genética ou a alimentação e os suplementos?
R: Tudo. A carga genética, a forma como se fez o cruzamento, a alimentação do filhote nos primeiros 45 dias, a alimentação e os suplementos que se dá até ao dia da exposição, são tudo condicionantes ao desempenho da ave.
Depois, teremos também de saber recuperar a ave. Todas a aves que expus foram minhas reprodutoras no ano seguinte.
P- Será que é essencial a utilização de germinados ou é possível obter bons resultados sem correr determinados riscos?
R: Nunca usei ou usarei germinados.
P- Se não usa germinado, nem madrastas para criar as suas aves, será que consegue criar uma quantidade de aves satisfatória? Com quantos casais criou no ano passado e quantos filhotes obteve?
R: No ano passado, criei cerca de 40 aves com 5 casais de cucullata e 5 casais de magellanica.
P- Como avalia o panorama ornitológico português?
R: Acredito que os criadores portugueses se irão adaptar mais tarde ou mais cedo a uma visão diferente quanto ao futuro, irão entender as novas tecnologias e a forma como as devem utilizar em seu proveito.
À medida que a concorrência vai ficando mais forte todos somos obrigados a melhorar. Mesmo sabendo que somos muito bons no que fazemos.
P- O que do seu ponto de vista poderia ser melhorado a médio longo prazo no panorama ornitológico português?
R: A longo prazo talvez as condições dos aviários, a oferta de comidas, papas e suplementos disponíveis no mercado e a entrada definitiva nas novas tecnologias.
Muito obrigado pela sua amabilidade por nos ceder esta entrevista e também por me ajudar a desmistificar determinados assuntos pertinentes do panorama ornitológico nacional e por tentar rumar um pouco contra a maré de críticas de alguns “velhos do Restelo” que falam, falam e não fazem nada.